História do desaparecimento
Meu marido desapareceu na véspera do Natal de 2019.
Uma discussão exasperada dentro do carro rompeu um limite invisível, as fundações do nosso relacionamento, em uma noite como outras, enquanto voltávamos da casa dos padrinhos dos nossos filhos adultos, que já não viviam mais conosco.
Estávamos os dois embriagados e, no furor de querer ter razão em questões sem importância, tão pueris que já mal me recordo, fizemos confissões que não deveríamos. Não naquele momento.
No minuto anterior, ríamos juntos da embriaguez coletiva com os nossos amigos e, de repente, estávamos trocando acusações de desamor.
Ele imitou meus gestos, feito criança brincando de provocar, e fez submergir o desprezo de um lugar desconhecido em mim.
Nos poucos minutos em que subíamos para o apartamento, no claustro do elevador, cercados de espelhos que multiplicavam nossas imagens, forçando uma aproximação indesejada, eu decidi me calar.
Petrifiquei, enquanto ele tentava amenizar o clima hostil estabelecido entre nós com assuntos práticos que costumavam desfazer as desavenças.
Mas era tarde. Eu estava por demais cansada, ou talvez embriagada, para retroceder.
Entrei no banheiro, encostei a porta, o que nunca fazia, pois éramos o casal da completa intimidade. Abri o chuveiro e deixei a água quase fria bater nos meus ombros, no meu rosto, e quem sabe me devolver à razão.
Depois de alguns minutos, ele entrou, despiu-se com naturalidade, como se nada estivesse fora do lugar.
Apressei minha saída, evitei encostar em seu corpo enquanto me enrolava na toalha. Queria impedir qualquer tipo de contato, mesmo um simples toque de pele, tamanha era minha aversão.
Ele se deitou depois do banho. Eu me sentei na poltrona da varanda, observando a cidade iluminada pelo brilho da lua cheia, sentindo a temperatura amena me envolver, nem frio nem calor.
Tentei decifrar a natureza dos sentimentos que nos mantinham juntos depois de três décadas, mas não encontrei motivos explícitos ou fáceis de compreender, apenas razões superficiais travestindo tensões subterrâneas.
Nada mais nos unia, a não ser o desejo egoísta de uma presença, qualquer presença, o velho medo de não encontrar alguém disposto a fazer companhia à nossa solidão. Já não havia em nós nenhum traço das pessoas que se conheceram décadas antes.
O sono enfim me dominou. Deitei-me na mesma cama e adormeci ao seu lado.
Na manhã seguinte, quando a luz penetrou o quarto, percebi seu movimento pelo balanço do colchão. Ouvi a porta do armário se abrir, o deslizar das gavetas. Depois, a porta do quarto se fechar.
Fiquei sem saber de seu paradeiro, mas não o interrompi. Não telefonei, não mandei mensagem, não insisti. Tinha a certeza de que havia se refugiado em algum lugar seguro distante de mim, preparando seu luto, enquanto eu preparava o meu.
Quando ele reapareceu na manhã do quinto dia, estávamos certos do fim.
Não conversamos. Ele arrumou as malas enquanto eu o assistia, juntou todas as peças, até mesmo as que ainda estavam sujas, mais dois ou três livros. Deixou todo o resto para trás.
Trinta anos se desfizeram como um grande incêndio que faz tudo desaparecer, deixando as cinzas como rastro de algo que um dia existiu.
Créditos da imagem: Anvār-i Suhaylī, 1847, in The Walters Art Museum, from https://pdimagearchive.org/images/bc877e59-33fd-4caa-8211-6991453429af/
Se conhece alguém pode possa gostar de ler este conto, compartilhe! :)


Hum, um dos melhores dos últimos tempo, hein? Adoro quando o contista consegue resistir às tentações de contar tudo, em detalhes. Afinal, essa a beleza do conto, né? O que está apenas sugerido. Parabéns!
Adorei! Triste, mas tão real e possível.