Delírios de posse
A história do homem que amava demais
Havia decidido não se casar novamente.
– Casamento, só uma vez na vida.
Não que desgostasse a vida a dois, ao contrário, mas é que o trauma da rejeição da primeira mulher, a que mais amou durante toda a vida, desfez qualquer esperança de uma relação duradoura, como sonhava desde garoto.
Afrânio era um homem que amava demais e não enxergava quão difícil se fazia a convivência entre suas parceiras e suas fantasias de controle.
Nunca era hora para as conversas necessárias, mas sufocava as companheiras com telefonemas excessivos e vigilância constante, porque era assim que sabia demonstrar seus afetos, resguardando obsessivamente a integridade física daqueles que amava.
Todas, sem exceção, o abandonavam em pouco tempo, ainda que tivesse conseguido se casar e dar vida à única filha um pouco antes do divórcio traumático.
Os subsequentes assaltos que sofrera ao longo dos anos o deixaram excessivamente protetor e arruinaram qualquer chance de um convívio salutar com as pessoas por quem desenvolvia afeto intenso, incluindo a filha única, que não se furtava de reprimi-lo, ainda que em vão, pela diligência descomedida.
Até que um dia, já beirando os setenta, há quase trinta anos vivendo só, conheceu Amália. A septuagenária, filha de imigrantes italianos, havia enviuvado há menos de seis meses, e ainda que o luto recente devesse supostamente lhe reprimir sentimentos amorosos, o encontro com Afrânio no aniversário do neto de um conhecido em comum despertou em ambos o desejo secreto e imediato por um relacionamento conjugal.
Amália passava o dia esperando os telefonemas de Afrânio que, sob os conselhos da filha, evitava demonstrar suas expectativas imoderadas.
Saíram duas vezes, uma para o cinema e outra para um almoço no qual concordaram em pedir duas taças de vinho, até que Afrânio achou por bem pedi-la em namoro, ainda que estivesse certo da precocidade do impulso.
– Não temos mais tempo a perder, Afrânio. Vamos nos casar de uma vez então!
E assim fizeram, para o choque da família da noiva, que esperava da matriarca o luto eterno pelo falecido marido de uma vida quase toda, mas que, afinal, parecia liberta de uma gaiola para entrar em outra, por livre e espontânea vontade.
Viveram na casa azul de Amália até a mulher enviuvar pela segunda e última vez, dez anos depois do aniversário em que se conheceram ao acaso.
Durante o enterro, a filha de Afrânio agradeceu Amália por ter realizado o sonho de casamento eterno do pai, e as duas mulheres se despediram amorosamente para nunca mais se encontrar.
Créditos da imagem: Anton Schöner | Illustriertes Prachtwerk sämtlicher Taubenrassen | 1906 em: https://pdimagearchive.org/infinite-view/


<3
Afrânio teve seu final feliz! s2